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A trajetória musical de Panambi ao longo da graduação na UNILA

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A história da estudante Adriana Panambi com a música começou cedo e logo se entrelaçou com a UNILA em um rico processo de formação.
publicado: 14/02/2019 16h38, última modificação: 22/08/2019 16h35
Adriana com sua orientadora, professora Juliane Larsen

Adriana com sua orientadora, professora Juliane Larsen

Adriana com sua orientadora, professora Juliane Larsen

A história da estudante Adriana Panambi Mendes Brito dos Santos com a música começou cedo e logo se entrelaçou com a UNILA em um rico processo de formação. Panambi, como é conhecida, conta que desde pequena teve contato com a música, muito em razão da influência do pai, que a ensinava. “A música sempre foi importante, quando criança eu já percebia o movimento do som como sentido principal. Como sempre tive problemas de visão e não usava óculos, era o som que me auxiliava a entender o mundo”, diz. Ao longo de sua vida, a estudante teve oportunidade de participar de grupos musicais e a reger dois desses grupos, pelo conhecimento adquirido a partir de seus primeiros estudos com a música.

Sua trajetória universitária começou com as primeiras tentativas de acessar o ensino superior. Panambi conta que, inicialmente, tentou entrar em outra universidade, em sua cidade natal, porém sem sucesso. Desistiu momentaneamente, mas não da música. Tempos depois, tentou entrar na UNILA e conseguiu. Em seus caminhos pelo curso de Música, destacou as características únicas da Universidade. “A questão da integração na Universidade foi uma experiência surreal a partir do ponto de vista musical, ao mesmo tempo que se conhece outros instrumentos, outras vozes, outros timbres, também se encontra muita semelhança e sensibilidade com o som”, conta.

E a integração, característica marcante da Instituição, foi mostrando sua face musical. “A primeira vez que escutei a composição de Isolina Carrillo 'Dos Gardenias', interpretada por vários artistas, sentia aquele famoso ‘arrepiozinho’ que essa melodia me trazia. Mercedez Sosa, Omara Portuondo, com o Buena Vista Social Club, também são referências que sempre carregarei na malinha do coração”, compartilha a estudante.

Panambi é a primeira mulher trans a se formar na UNILA. Ela destaca o apoio que recebeu dos mais próximos para vencer os desafios até chegar à sonhada formatura. “Eu não estava sozinha. A negritude me fortaleceu para eu levantar. Muitas mulheres ajudaram-me a continuar. A música me inspirou a erguer a cabeça, quebrar as cadeias e vencer. Carrego em mim muita história latino-americana que se compôs na UNILA [...] ‘Lágrimas de samba na ponta dos pés’[...]”, afirma.

Agora, após se graduar como bacharel em Música, Panambi conta que sua pretensão é continuar cantando e compartilhando aquilo que recebeu na universidade: “Não tem troféu mais lindo do que o conhecimento que a gente ganha e compartilha. É uma vitória.”

Confira a entrevista completa com a estudante:

Qual o papel da música em sua vida?

A música sempre foi importante. Quando criança, eu já percebia o movimento do som como sentido principal (como sempre tive problema de visão e não usava óculos, era o som que me auxiliava a entender o mundo). E durante a infância, o meu pai, músico, me ensinava um pouco do que conhecia e aprendia. Em meu crescimento, eu tive a oportunidade de participar de vários grupos musicais e a reger dois desses grupos pela influência que eu conquistei nesses estudos com a música. A arte do som, embora na maioria das vezes ensinada no Brasil a partir de um contexto colonial, pra mim é o que me move.

Como optou pelo curso de Música na UNILA?

Tentei entrar em uma outra universidade na cidade onde nasci, sem sucesso, eu desisti, mas continuei praticando a arte, excepcionalmente a de cantar. Os grupos que eu participei traziam consigo um “quê” de espiritualidade, o que me movimentava e me instigava a querer mais música, mesmo sem argumentos para estudar. Lembro que eu subia na laje de casa e ficava praticando algumas músicas. A Alicia Keys teve muita influência nesses meus estudos e práticas. Os vizinhos me ouviam praticar e me copiavam.

O que você vê de especial na graduação em Música da UNILA?

A questão da integração na Universidade foi uma experiência surreal a partir do ponto de vista musical, ao mesmo tempo que se conhece outros instrumentos, outras vozes, outros timbres, também se encontra muita semelhança e sensibilidade com o som. A primeira vez que escutei a composição de Isolina Carrillo “Dos Gardenias”, interpretada por vários artistas, eu sentia aquele famoso ‘arrepiozinho’ que essa melodia me trazia. Mercedez Sosa, Omara Portuondo, com o Buena Vista Social Club, também são referências que sempre carregarei na malinha do coração.

O que significou para você cursar e se formar em Música na UNILA?

Estudar Música na UNILA é um privilégio, o presente da integração com o que é nosso e que, por vezes, pode parecer que se esquece. O lugar do cantar, do falar, do dançar, do batucar e a percepção das ondas sonoras que chacoalham a nossa audição é um aprendizado valioso e eterno. Me formar é carregar um troféu que eu sempre ansiei, mas eu o carregava comigo, com os amigos, os professores, a comunidade acadêmica e externa, a Universidade toda. Não tem troféu mais lindo do que o conhecimento que a gente ganha e compartilha. É uma vitória.

Como foi sua trajetória, como mulher transexual, ao longo do processo de formação?

Assim como qualquer trajetória é difícil, na minha também se pode encontrar muitas, muitas e muitas pedras, tijolos, buracos e até mesmo barreiras no caminho. O fardo que eu carrego é enorme. Muitas vezes, eu tive que tirar força de onde eu não tinha. Tive que descer os buracos, caminhar por lugares espinhosos, com fome e sede. Encontrei obstáculos que me faziam e fizeram regressar por muitas vezes. O caminho que eu fiz, para mim, é limpo, e eu tenho consciência disso. Olhar para trás era mais fácil do que prosseguir. Chorei muitas vezes, porque eu não aguentava e não sabia como suportar. Poucas vezes, na frente do meu obstáculo, eu mostrei minha fraqueza. Subi a ladeira, e tive que limpar os espinhos, pisei em alguns. Meu foco é ir avante.

Eu sempre soube que aquela coroa já era minha (e ela não é só para mim, essa vitória é dos meus também). Ainda não a conquistei, mas ela é minha. Está me esperando.

O que significa para você ser a primeira mulher transexual formada pela UNILA?

A Universidade Federal da Integração Latino-Americana é um espaço de conhecimentos, trocas de experiências e sabedoria. Eu não estava sozinha. A negritude me fortaleceu para eu levantar. Muitas mulheres ajudaram-me a continuar. A música me inspirou a erguer a cabeça, quebrar as cadeias e vencer. Carrego em mim muito da história latino-americana que se compôs na UNILA.

[...] “Lágrimas de samba na ponta dos pés”[…]. Ser formada pela UNILA é grandioso, é inenarrável, é ser vista e, a partir disso, transmitir conhecimento, compartilhar o que é a diversidade. Eu percebi o respeito que eu tinha (conquistado) a partir de todos os ambientes, de todos os grupos. Eu não imaginava que essa conquista seria possível.

Quais são os planos agora após a formatura?

Parafraseando a Elza Soares: Eu quero cantar (até o fim).

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