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Nota do PPGICAL

Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina emite nota sobre os recentes acontecimentos na Venezuela.
publicado: 07/01/2026 12h46, última modificação: 07/01/2026 12h46

O Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPGICAL) divulga nota na qual se posiciona sobre os recentes acontecimentos envolvendo a Venezuela.

Confira o texto na íntegra:

O Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPGICAL/UNILA) manifesta sua irrestrita e profunda solidariedade ao povo venezuelano e repudia a agressão imperialista que culminou no sequestro criminoso do presidente constitucional Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. A operação ainda vitimou mais de cem pessoas, inclusive civis, assassinadas durante a invasão imperialista. É gravíssimo o grau de desprezo dos Estados Unidos por quaisquer regramentos internacionais e o abandono da busca de consensos mínimos. Assistimos atualmente à reativação da diplomacia do porrete, agora muito maior e mais letal do que há um século.

Isso ocorre quase simultaneamente ao perdão total e incondicional ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos por tráfico de drogas após ser julgado e condenado pela justiça dos Estados Unidos. A libertação de Hernandez teve como objetivo auxiliar na eleição de Nasry Asfura, candidato apoiado por Donald Trump que foi reconhecido como vencedor pelo Conselho Nacional Eleitoral, apesar de inúmeras denúncias de fraude.

A libertação de um criminoso julgado e condenado e a prisão ilegal de um presidente constitucional devem ser lidas em conjunto e acendem um sinal de alerta pelas lideranças latino-americanas: um posicionamento vacilante nesse cenário pode ser fatal para a soberania de nossos povos. As grotescas imagens de Nicolás Maduro, algemado caminhando pelos corredores da Drug Enforcement Administration (DEA), devem ser interpretadas como profundo desrespeito a todas e todos nós.

Até hoje, os Estados Unidos já invadiram e retiraram por meio das armas três governantes em exercício: Manoel Noriega (Panamá), Jean Bertrand Aristide (Haiti) e Nicolás Maduro (Venezuela). As três situações são radicalmente diferentes entre si, mas demonstram que não há nação latino-americana que esteja a salvo da agressão imperialista. Também é fundamental levar em conta que jamais uma primeira-dama foi sequestrada nesse tipo de operação, como ocorreu com a senhora Cilia Flores, de quem não se tem notícias até o momento.

O imperialismo estadunidense nunca reconheceu plenamente a autonomia dos países da América Latina, tratando a região como um espaço subordinado aos seus interesses estratégicos, geopolíticos ou econômicos. As agressões recentes apenas confirmam o que a História já demonstrou. É importante não perder de vista que antes do sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, Donald Trump declarou que a Venezuela sofreria um “choque sem precedentes” e exigia a devolução de “petróleo, terras e outros ativos” invertendo maliciosamente a realidade: é na Venezuela que se localiza a maior reserva de petróleo do mundo e não no subsolo da Casa Branca. A inversão discursiva, articulada à retórica do combate ao narcotráfico, é um mal disfarçado pretexto para promover um saque sem precedentes às riquezas venezuelanas, primeiro e gravíssimo passo de uma estratégia para submeter toda a América Latina e Caribe.

A agressão à Venezuela insere-se na atualização da Doutrina Monroe sob o chamado “corolário Trump”, expressão de um unilateralismo agressivo que busca reafirmar a primazia estadunidense no Hemisfério Ocidental. Longe de sinalizar força, tal estratégia é a expressão do enfraquecimento da hegemonia global do império que, entretanto, não significa que os Estados Unidos tenham deixado de ser uma grande potência, principalmente em termos militares, o que torna ainda mais perigosas suas incursões na região: ao voltar-se sobre o continente americano com os mesmos métodos que garantiram sua dominação no século XX, os EUA buscam recuperar o fôlego e acumular recursos para se cacifar frente a China e a Rússia em disputas futuras.

O ataque à Venezuela é um ataque à América Latina e à humanidade. A insistência nesse caminho não apenas aprofunda a instabilidade regional, como também contribui para um cenário internacional cada vez mais tensionado, no qual conflitos podem adquirir dimensões mais amplas, potencialmente planetárias.

A identidade histórica do povo venezuelano foi forjada em uma luta concreta por sua independência, marcada pelo enfrentamento do domínio colonial espanhol e pela afirmação prática de sua soberania. Essa tradição de resistência permanece viva frente aos ataques neocoloniais estadunidenses e é um exemplo da resistência heroica de um povo contra a agressão externa.

O PPGICAL, assim, manifesta sua solidariedade com o povo venezuelano, repudia a agressão à Venezuela, o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores e reafirma seu compromisso político, acadêmico e ético com a integração latino-americana e caribenha, com a defesa da soberania dos povos e se soma às vozes que rechaçam a agressão imperialista estadunidense à Venezuela.