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Tarefas de cuidado precisam ser tratadas como políticas públicas, diz pesquisadora

Para a cientista social e docente da UNILA, Silvia Lilian Ferro, o cuidado deve ser encarado como trabalho para atender a demanda que começa a ser sentida com a transição demográfica
publicado: 01/05/2023 08h00, última modificação: 03/05/2023 16h01

O Brasil e outros países da América Latina avançam a passos largos para uma transição demográfica aguda, que traz consigo um sério problema: a queda dos provedores de cuidados. Culturalmente atribuído às mulheres, o cuidado, seja com a casa, crianças, idosos ou de saúde, precisa ser previsto em políticas públicas para que os países possam enfrentar o envelhecimento de sua população. Os sistemas de cuidados na América Latina, em especial, na Tríplice Fronteira, são temas de pesquisa da cientista social e docente da UNILA, Silvia Lilian Ferro.

A transição demográfica tem entre suas características a queda nas taxas de fecundidade, natalidade e mortalidade e o consequente envelhecimento da população. “O Brasil, entre os países latino-americanos, é o que tem a maior queda na taxa de fecundidade. Já iniciou e está aprofundando um processo de envelhecimento da população, o que vai colocar uma demanda de cuidados enorme sobre o conjunto da população. Este é um problema de política pública, de Estado, não apenas sobre como homens e mulheres distribuem as responsabilidades de cuidado”, analisa a pesquisadora.

Assista entrevista completa:

A pesquisadora enfatiza que é preciso deixar de olhar como uma tarefa feminina a prestação de cuidados. “As sociedades naturalizam a questão do cuidado como se fosse parte da natureza feminina cuidar dos outros. E invisibilizam o fato de que cuidar significa uma resignação do tempo pessoal, um gasto de energia, um investimento de tempo e uma grande personalização”, pontua. O cuidado, diz, precisa “ser reconhecido como um trabalho”.

Ao considerar feminina a tarefa de cuidar, diz ela, e ao relacionar o cuidado ao afeto, a sociedade exime os homens dessa responsabilidade e, ao mesmo tempo, acaba por sobrecarregar ainda mais as mulheres. “Não há uma distribuição das tarefas de cuidado com os homens de maneira equitativa”, pontua. O problema se torna mais grave quando analisada a participação do Estado em muitos países latino-americanos, incluindo o Brasil. “Em escala sistêmica, a organização social do cuidado – o Estado, a organização da sociedade civil e o sistema empresarial – é insuficiente.”

O conjunto da falta de uma infraestrutura adequada, a sobrecarga de tarefas femininas acaba por agravar a transição demográfica, diz a pesquisadora, porque leva muita mulheres a optar por não ter filhos ou adiar a maternidade. “Naturalizando o cuidado como se não fosse trabalho, vamos seguir entendendo a queda da natalidade como se fosse um fenômeno da natureza.”

Reflexos locais 

Para alterar o atual cenário, a pesquisadora assinala que o primeiro passo é tirar da família e, principalmente, das mulheres a responsabilidade pelo cuidado. Além disso, é preciso que a sociedade comece a discutir seu sistema nacional de cuidados e a implementação de políticas públicas. Segundo Silvia Lilian, em países da América Latina, como Uruguai, Chile e Argentina, a discussão dessas políticas está mais madura, mas, no Brasil, ainda é muito incipiente.

A inexistência de políticas públicas e deficiência da infraestrutura de cuidados em diferentes países europeus e nos Estados Unidos levaram a população a tomar decisões como a redução do número de filhos e a maternidade tardia. Outra solução encontrada pelas famílias desses países foi buscar cuidadoras, latino-americanas inicialmente e do sudeste asiático na onda mais recente. “A América Latina virou uma exportadora de cuidadoras”. Essas decisões e ações, diz ela, repetem-se em escala regional, como ocorre na Tríplice Fronteira. A face mais visível dessa “importação” de cuidadoras está no trabalho de mulheres paraguaias nas casas de Foz do Iguaçu. Trabalho doméstico que, para Silvia Lilian Ferro, não está desvinculado do cuidado.

Na sua pesquisa, ela está analisando a organização nacional do cuidado nos três países da fronteira, a infraestrutura pública e como se articulam – ou não – as políticas entre os países. Entre as contribuições que a docente espera oferecer com sua pesquisa estão a confecção de um mapa territorial da infraestrutura pública de cuidados, a aferição do déficit de cuidados atual e projetado, oportunidades de trabalho e a consequência econômica da mobilidade existente na Tríplice Fronteira. “Pensei essa pesquisa como um insumo para políticas públicas, para os tomadores de decisão.”

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