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Ingresso de estudantes indígenas na UNILA é tema de encontro no Ocoy

Também foram discutidos temas como as demandas por cursos de extensão; ação é esforço para fortalecer a UNILA como instrumento social na região Oeste do Paraná
publicado: 15/01/2018 00h00, última modificação: 12/01/2019 00h19
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Escola indígena da reserva do Ocoy, prédio que poderia abrigar o curso de Educação Intercultural Indígena

Lideranças guaranis participaram de uma reunião, na Reserva Ocoy, com a vice-reitora da UNILA, Cecília Angileli, e o professor de História Clóvis Brighenti, que tem formação e atuação ligadas aos povos indígenas. Na reunião, foram discutidos o acesso de indígenas ao ensino superior e demandas por cursos de extensão e outras ações acadêmicas.

O encontro, realizado no final de dezembro, foi proposto pela Reitoria, em um esforço para estabelecer políticas que fortaleçam a UNILA como instrumento social na região Oeste do Paraná e consolidem sua identidade. “A gente gostaria de garantir o acesso efetivo dos assentados do campo e da cidade, indígenas e refugiados, com políticas que assegurem tanto a entrada como a permanência, para um fortalecimento mútuo”, disse a vice-reitora durante a reunião. “A UNILA está num momento em que discute a sua identidade, sendo fundamental a garantia da entrada desses grupos na Instituição”, completou.

Participaram da reunião Isário Karai Tapery Vaz, cacique do Tekoha Itamarã; Rosilda Yva Rete Lopes, Delmira de Almeida Peres, Hilário Nhembarai Alves, Francisco Popygua Pereira e Luis Mbaraka Miri Martins, professores; Pedro Bolantin, integrante da comunidade do Ocoy; e Celso Jepoty Alves, cacique do Tekoha Ocoy.

Hilário Alves, Francisco Pereira, Isário Vaz, Rosilda Lopes e Delmira Peres          Luis Martins, Pedro Bolantin, Celso Alves, Clóvis Brighenti e Cecília Angileli  

Pedro Bolantin lembrou a escassez de vagas para alunos indígenas na região e a dificuldade com transporte. “Temos professores e alunos formados dentro da aldeia que estão querendo ajuda para sair e aprender. A maioria depende de transporte e auxílio financeiro”, reforçou.

Delmira Peres, que é aluna de mestrado na UNILA, argumentou que os indígenas enfrentam muita dificuldade com as leituras. “Nossa língua materna é o guarani, e não o português, e [aqueles que vão entrar na universidade] vão ter dificuldade mesmo, principalmente na leitura. É, sim, um desafio! Para nós é um grande desafio. A universidade que quer acolher os indígenas tem de pensar diferente.”

Educação indígena

“Só nessa comunidade tem aproximadamente 20 alunos que ingressariam se fosse uma seleção específica. Será que existiria a possibilidade de a universidade abrir um curso aqui na própria aldeia?”, questionou Luis Mbaraka Miri Martins. A pergunta levou à discussão sobre a possibilidade de o curso Educação Intercultural Indígena (aprovado pelo Conselho Universitário e pelo Ministério da Educação, em 2014) ser realizado na própria reserva. Uma proposta será elaborada e discutida na UNILA e também com lideranças da região.

“O curso Educação Intercultural Indígena é pensado para formar professores indígenas. São poucas as escolas no Brasil administradas por professores indígenas. Esse curso teria esse foco e seria interessantíssimo se fosse realizado aqui mesmo [Ocoy], nesse espaço”, defendeu o professor Clóvis Brighenti, que participou das discussões para a formatação do curso.

Para ele, cursos de formação para professores e também sobre políticas de educação são essenciais para a cultura indígena, levando em consideração não apenas a região Oeste do Paraná, mas também as comunidades indígenas de Argentina e Paraguai. “É o mesmo povo guarani, as pessoas transitam nessas fronteiras e os processos educacionais são muito diferentes. Isso quem vai poder mudar são os guaranis. É preciso pensar numa educação guarani independente das fronteiras”, sustenta Brighenti.

 

Escola indígena da reserva do Ocoy, prédio que poderia abrigar o curso de Educação Intercultural Indígena

Sobre o acesso à Universidade, Cecília lembrou que está sendo discutida a reserva de duas vagas em cada um dos 29 cursos da UNILA para indígenas. A proposta está tramitando nas comissões superiores da UNILA. Brighenti explicou que a ideia é fazer a seleção pela nota do ensino médio e atribuir maior peso para indígenas do Paraná, Alto Paraná (Paraguai) e Missiones (Argentina). “Estamos pensando na região, e o adicional é para que as pessoas daqui da região possam ingressar”, disse. “Temos boas expectativas [na aprovação da proposta nas comissões superiores da UNILA]”, completou.

Cecília também destacou a possibilidade de realização de ações de extensão e o estabelecimento de uma política de incentivo a pesquisas relacionadas aos povos indígenas, entre outras ações. Brighenti ressalvou que é preciso fazer uma sensibilização dos professores que irão coordenar essas ações. “Não é só trazer conhecimento, mas valorizar o conhecimento que já existe aqui dentro e que não é valorizado. Temos a obrigação de transmitir, mas também de fazer junto, pensar conjuntamente.”

Para o cacique Celso Alves, a disposição da UNILA em ofertar a graduação e cursos de extensão é muito importante. “Precisa pensar no futuro da comunidade, dos jovens. Nosso objetivo é chegar ao momento de ser autônomos na nossa escola. Dessa forma, chegar a uma educação diferenciada, valorizando o conhecimento dos mais velhos, a cultura indígena, nossa história e direitos.”

Além do encontro com as lideranças indígenas, foram feitas reuniões com assentados do campo, em São Miguel do Iguaçu e Matelândia, com o mesmo objetivo.