Você está aqui: Página Inicial > Notícias > Grupos da comunidade universitária debatem questões de gênero
conteúdo

Vida Universitária

Grupos da comunidade universitária debatem questões de gênero

Diversos debates relacionados a gênero e diversidade - e ações em torno desses temas - têm sido construídos por grupos e coletivos da UNILA
publicado: 31/03/2017 00h00, última modificação: 12/01/2019 00h18

Hoje ela afirma-se como transgênero negra - identidade que passa por um processo de construção, diante de uma trajetória de preconceitos, lutas e transformações. O caminho de Nicole Machado, estudante de Letras - Artes e Mediação Cultural da UNILA, tem sido orientado pelo transfeminismo negro interseccional, entrelaçado por questões de raça, classe e gênero. O termo trans é amplo e integra uma diversidade de identidades de gênero, como trans não binário, que não se identifica como homem nem como mulher. “Acho que essas ‘caixinhas’ não funcionam; isso é mais uma referência. Tudo é um processo de perceber que há uma autonomia nessa questão de identidade”, afirma a discente. Nicole localiza no binarismo - masculino ou feminino – uma das problemáticas desse debate.

É uma discussão que atravessa o fato de existir, em referências médicas, a patologização das identidades - com uso de termos transexualismo e travestismo. “Acho que aí está a grande luta. A despatologização também passa, por exemplo, pela luta contra a necessidade de laudos médicos que precisamos para ter um nome. Caminha-se muito lentamente. Alguns avanços entendo como migalhas em um país campeão em transfobia, em que se mata bastante”, pontua a estudante. Dados da rede europeia Transgender Europe (TGEU) apontam um total de 295 casos de assassinatos de pessoas trans entre outubro de 2015 e setembro de 2016, em 33 países, com a maioria no Brasil (123).

Letícia Scheidt: construir um olhar de aceitação e acolhimento“Pensar as questões de gênero é sempre muito importante para se dar conta em qual momento a gente está como sociedade - um movimento que é muito conservador. As estruturas que nós temos, inclusive em universidades, reproduzem isso, com espaços opressores tanto para a mulher como para a população trans, por exemplo. E, quando falamos em diversidade, isso inclui abrir esses espaços para toda a diversidade, seja étnica, cultural, linguística, e não só a de gênero”, aponta Letícia Scheidt, psicóloga da Universidade. Ela integrou o Maldita Geni - um dos coletivos pioneiros na UNILA a debater questões sobre diversidade, e núcleo embrionário de discussões que resultaram na adoção oficial do nome social na Universidade.

O Coletivo trabalhou com eventos, diálogos e ações de intervenção - como projetos de extensão em escolas, contribuindo no debate sobre gênero e sexualidade. As discussões e participações no Maldita Geni incluíram discentes, técnicos e docentes da Universidade. “Quando não criamos espaços coletivos de empoderamento, caímos em uma lógica de violência de gênero que precisamos trabalhar pra construir um olhar de aceitação e acolhimento”, aponta Letícia.


Grupos e coletivos


Diversos debates relacionados a gênero e diversidade - e ações em torno desses temas - têm sido construídos por grupos e coletivos, integrados por membros da comunidade acadêmica da Universidade. “A ideia de coletivos é interessante porque pode ser um pouco mais horizontal do que acontece em uma sala de aula. São espaços pra trocar informações, fazer amizades e pra ter referências. Participei mais ativamente no Afro-Latino, no qual consegui discutir raça, racismo e colocar questões de gênero”, relata Nicole Machado. O Coletivo Afro-Latino-Americanos e Caribenhos é formado por estudantes negros e afrodescendentes da Universidade, e também incorporou o debate da questão de gênero.

“O Coletivo começou a se organizar para demandas dentro da Universidade, como cotas e auxílio-permanência, além de outras mobilizações e ajuda entre os companheiros. Outra frente é o fortalecimento teórico – discussão política, social, econômica e literária , debatendo questões de raça. Havia também um grupo de acadêmicas que tinham uma discussão paralela sobre vulnerabilidade social, solidão da mulher negra dentro da universidade e seus desdobramentos”, relata Janaína Santana, membro do Coletivo e graduada em Antropologia pela UNILA.

Cynthia Luna Montalbetti: Não queremos que as estudantes sofram o que sofremos

 

 

 

Outro grupo que uniu forças femininas foi a Coletiva Marti Vive, que surgiu como um movimento contra violência às mulheres e faz referência à estudante Martina Piazza, assassinada em 2014. A Coletiva nasceu em 2015, de dores sofridas por estudantes e que se transformaram em luta e acolhimento. “Chega um momento em que a gente se percebe dentro de um grupo e começa a enxergar de outra forma. E quando temos uma dor em comum, sentimos necessidade de conversar sobre ela. A violência é um ciclo – você sofre a primeira, e a segunda é a sua própria, porque pode se sentir culpada e, assim, buscar acolhimento”, diz Cynthia Luna Montalbetti, integrante da Coletiva e estudante do mestrado em Integração Contemporânea da América Latina da UNILA.

Quando temos uma dor em comum, sentimos necessidade de conversar sobre ela

A Coletiva atua por meio de escuta e discussão sobre a violência contra mulheres, o acolhimento de estudantes que passaram por esse processo, além do acompanhamento em espaços como Delegacia da Mulher e Centro de Referência em Atendimento à Mulher em Situação de Violência (Cram). A Marti Vive organiza, ainda, outras ações, a exemplo da hospedagem solidária para acadêmicas ingressantes na UNILA. “Não queremos que as estudantes sofram o que sofremos. E buscamos acolher da melhor forma possível, para evitar que o ciclo da violência comece a partir do momento que elas entram na universidade”, coloca Cynthia.

 Debate do Fórum Permanente de Equidade de Gênero da UNILA. Foto/Página do Fórum


Políticas de Equidade de Gênero


Em paralelo com a Coletiva Marti Vive, o Fórum Permanente de Equidade de Gênero da UNILA também surge a partir de movimento para debater e propor ações contra violência a estudantes. E a partir do Fórum, nasce a Comissão Institucional para o Acompanhamento da Implantação da Política de Equidade de Gênero, no âmbito da Universidade. Neste semestre, a Comissão envia ao Conselho Universitário proposta de uma política que contemple essas questões, debatidas nos seguintes eixos: enfrentamento à violência de gênero no ambiente universitário; inclusão da maternidade e da paternidade no ambiente universitário; direitos da população LGBT na UNILA; e gênero, raça e etnia.

Em organização coletiva, integrantes do Fórum realizaram um encontro de mulheres na Universidade, com participação de docentes, técnicos e discentes. Verificaram a necessidade de um espaço onde fossem pensadas ações para combater a violência, apoiadas em uma perspectiva de política institucional. Grupos e coletivos como Maldita Geni, Grupo Mães e Pais da UNILA e Marti Vive integraram o debate. “O Fórum fez o papel de ouvir, escutar e também de pensar ações concretas, e não ficar só na queixa. Vejo que é da postura política dos coletivos, pensar e organizar ações. Nessa participação do Fórum e da Comissão, também pudemos estar mais próximos dos serviços do município, principalmente do Cram”, relata Ana Paula Nunes, integrante do Fórum e assistente social da UNILA.

Cristiane Pires: falta uma política de prevençãoA criação de um órgão de articulação e implementação da política de equidade de gênero é uma das propostas do Fórum. “A gente acaba sendo reativa; quando tem uma situação, corremos atrás. Então falta uma política de prevenção”, destaca Cristiane Pires, integrante do Fórum e socióloga da UNILA. Ela também é suplente da Universidade no Conselho Municipal da Mulher, espaço conquistado pela UNILA a partir de inserções em debates, a exemplo da Conferência Municipal dos Direitos da Mulher. Outra proposta é a criação de um espaço de aconselhamento – consejería para mulheres da Universidade. “Como o grupo do Fórum é diverso, tem muitas experiências, coisas novas surgem, a exemplo das consejerías, presentes em algumas universidades argentinas”, coloca Ana Paula.

Comissão de Acompanhamento

No âmbito das discussões de gênero e a partir da adoção do nome social na UNILA, também surge a Comissão Permanente de Acompanhamento das Políticas de Igualdade de Gênero. A resolução dessas Políticas aplica-se às pessoas travestis, transexuais, transgêneros e não binárias que desejam adotar um nome que escolhem para ser identificadas, uma vez que o nome de registro não reflete sua identidade de gênero. A resolução atende estudantes, técnicos e professores, além do público externo que se insira em algum contexto da Universidade.

“A Comissão vem no sentido complementar do Fórum, uma vez que vai trabalhar muito pontualmente com a questão da diversidade sexual, em especial com a identidade de gênero. Tem o papel de receber e dar encaminhamento às situações de violação da resolução. A ideia é que também possa propor políticas e melhorias na resolução, em conjunto com coletivos da Universidade”, explica Ronaldo Canabarro, servidor técnico-administrativo da UNILA e integrante da Comissão, que deve ser composta, ao menos, por um representante discente, técnico e docente.

Ronaldo Canabarro: circular pelos espaços da Universidade com respeitoPara ele, conhecer e aplicar a resolução é um passo dentro da política de acesso, que ainda necessita ser ampliada para resoluções de permanência do estudante, além de sensibilização, no intuito que as pessoas compreendam e respeitem a diversidade de gênero. “Isso envolve uma questão cultural, de mudança de mentalidade e de atitude de muitos daqueles que vão receber essa pessoa, que sofre violência do Estado. A ideia de ter uma política interna é que as pessoas que já são vulnerabilizadas socialmente, colocadas à margem da sociedade, possam, minimamente, circular pelos espaços da Universidade com respeito, empoderar-se disso e travar suas lutas em outros espaços”, diz Ronaldo.