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Vida Universitária

Na Semana da Mulher, comunidade debate questões de gênero e feminismo

Estudantes, docentes e servidoras abordam essas questões em seus trabalhos e no cotidiano interno da Universidade e com a comunidade
publicado: 06/03/2018 00h00, última modificação: 12/01/2019 00h18
Exibir carrossel de imagens A estudante Sigrid Beatriz Varanis, do curso de História - América Latina: diálogo

A estudante Sigrid Beatriz Varanis, do curso de História - América Latina: diálogo

Discussões sobre diversidade, gênero e feminismo estão presentes na trajetória de algumas integrantes da comunidade acadêmica da UNILA, o que reflete na atuação dessas mulheres dentro da Universidade. São estudantes, servidoras técnico-administrativas e docentes que atuam em torno dessas temáticas nas instâncias acadêmicas, administrativas e em outros espaços de diálogo com a comunidade, promovendo debate, reflexão e ações na Universidade e em outros contextos.

A estudante Sigrid Beatriz Varanis, do curso de História - América Latina: diálogoEntre elas está a estudante Sigrid Beatriz Varanis, do curso de História - América Latina (Bacharelado). Ela considera-se uma feminista interseccional e busca dialogar seu ativismo com a academia e também com ações fora desse ambiente. Na sala de aula e em seus trabalhos, procura trazer referências teóricas femininas invisibilizadas - inclusive nos espaços acadêmicos. Ela traz essas discussões, com inspirações de outros projetos realizados no âmbito da UNILA, sobre invisibilidade de mulheres na história e sobre gordofobia. Referências que trazem identificações e marcas na história de Beatriz. “Como eu era uma criança gorda, isso já me fazia ter uma vivência diferente, em uma cidade do interior, onde tive que lidar com estereótipos e uma certa cultura em que você não se encaixa. E tudo isso fui compreendendo ao longo do tempo - meu corpo como algo político, dentro da história dos corpos das mulheres, com padrões criados histórica e socialmente, opressões e violências”, conta a estudante, que passou sua infância em Sonora, interior do Mato Grosso do Sul.

Em 2015, a discente criou a página  As Mina na História, com o objetivo de circular informações de mulheres como protagonistas. “São histórias que a gente não tem acesso na escola, no dia a dia, nem na mídia”, pontua. Ela conta que, a partir desse olhar, nasceu outro projeto, intitulado São Paulo feita por mulheres - projeto de mapa colaborativo, no qual emergem locais onde viveram personagens históricas femininas, além de monumentos, estátuas e praças que evidenciam as mulheres. “É muito simbólico quando você invalida história de mulheres e não as reconhece como agentes históricos. Isso tem um significado físico da nossa memória”, aponta. Por ironia do destino, nesse processo, a estudante descobriu que o bairro onde morava a sua avó foi construído por um grupo de mulheres, que nomearam as ruas com importantes personagens femininos: Tarsila do Amaral, Lina Bo Bardi, Mãe Meninha do Gantois...

E foi nesse ambiente de evidências femininas que Beatriz conviveu com a avó - uma referência importante na sua vida. Ela foi professora de Artes e passou por quatro desquites, alguns fatos que geraram preconceitos e sofrimento. A força e a coragem dela inspiraram Beatriz a criar a campanha Minha vó na História (2017), que se espalhou pelas redes sociais assim como outro movimento, Em memória delas (2016). "Eu queria que a gente começasse a olhar as nossas avós como mulheres históricas, que a gente pudesse aprender sobre feminismo, desigualdade de gênero, classe, direitos e os estereótipos que levamos. Tudo isso na fala das nossas avós, nas histórias que elas contam sobre suas vidas", diz a estudante. Essas e outras vozes femininas vão ganhar um tom mais evidente com a publicação de um livro de Beatriz, que, aos 20 anos, reúne trajetórias de outras gerações femininas, a partir de depoimentos feitos a essas campanhas. O livro terá, ainda, capítulos dedicados a biografias de mulheres latino-americanas apagadas da história. A publicação da obra está prevista para agosto, pela Gibim Editora.

Pesquisa e extensão

Elena Schuck, docente do curso de Ciência Política e Sociologia: epistemologias feministas do Sul GlobalA discussão sobre o corpo feminino também esteve na pauta de ações acadêmicas por parte da docente Elena Schuck, do curso de Ciência Política e Sociologia. Ela organizou uma atividade de extensão, em parceria com o curso de Letras - Artes e Mediação Cultural, sobre corpo, arte e política, com discussão sobre as características do trabalho artístico de mulheres latino-americanas. Trabalho que gerou repercussão na cidade, a partir de um debate de gênero na Universidade e que se estende também a pesquisas e discussões em sala de aula. “Nas disciplinas pelas quais me responsabilizo, mesmo que não sejam específicas sobre gênero, procuro chamar a atenção dos estudantes para questões de gênero e raça, que não devem ser isoladas, mas que dialogam com toda a Ciência Política e Sociologia”, diz.

Ao longo do doutorado, a docente aprofundou-se em epistemologias feministas do Sul Global e em temas que passam pelo debate sobre gênero, pós-colonialismo, movimentos sociais, justiça global, cidadania e democracia. A especificidade da UNILA, no que se refere à integração latino-americana e à fronteira, colocou no caminho da docente novos desafios teóricos. “De forma geral, no Brasil, não lemos muito o trabalho de autoras vizinhas. Acabamos sempre nos referindo a autoras brasileiras, norte-americanas ou europeias. Talvez seja por uma posição histórica de isolamento do Brasil com o resto do continente. Foi na UNILA que me deparei com essa questão e passei a buscar autoras latino-americanas hispanohablantes para discutir em aula”, contextualiza.

Ela também aponta um universo de estudos sobre a temática, na Universidade, que passa por discussões sobre gênero, raça, classe e geografia, por conta de especificidades da região, que abrange uma diversidade de movimentos feministas. “Há movimento de mulheres campesinas, mulheres negras, mulheres indígenas, há o feminismo comunitário, há uma série de movimentos feministas da periferia, grupos feministas em defesa dos direitos sexuais e reprodutivos, o movimento LGBTT. Acho que a mais importante singularidade dos feminismos latino-americanos é a sua potência subversiva, que tem a crítica decolonial como linha de frente”, aponta.


Encontros pela Diversidade


Solange Bonomo Assumpção: entendendo a raiz das dificuldadesNa trajetória da servidora técnico-administrativa e pedagoga Solange Bonomo Assumpção, questões sobre diversidade sempre estiveram presentes. Na sua atuação como formadora de professores de licenciaturas e doutoranda em Linguística, ela relata que são temas que emergem com recorrência no ambiente escolar, diante de diversas violências relacionadas a gênero. Na UNILA, atualmente ela coordena o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas e Práticas em Educação Intercultural (NIPPEI), do Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História (ILAACH), onde tem realizado trabalhos de pesquisa.

“Minha atuação está em duas frentes: gerar dados à coordenação de cursos, centros e institutos, que possam contribuir para a construção de políticas; e também no acolhimento de estudantes, com uma visão de trabalhar o sentimento de pertencimento”, explica. Os estudos prosseguem, também com intuito de criar protocolos de atendimento, com detalhamentos. “A ideia é aprofundar-se nas demandas, não só de forma quantitativa como também qualitativa, para entender a raiz das dificuldades, cujos sintomas trazem outras questões que precisamos qualificar”, diz.

Essas ações também estão articuladas com os Encontros pela Diversidade, promovidos pelo ILAACH e coordenados pela professora Cleusa Gomes, do curso de História. A reflexão e a formação de membros da Universidade ocorrem com integrantes de uma rede de instituições da região, que discutem e atuam sobre a questão da diversidade. O próximo encontro traz o tema feminismo, no contexto étnico-racial. Solange aponta que são diálogos permeados de imensos desafios. Um deles, destaca, “é olhar para o sujeito no espaço coletivo sem perder de vista suas especificidades, que são tão importantes, e ainda criar uma unidade, necessária para que apareça o sentimento de pertencimento”, afirma.


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