Pesquisa
Pesquisa da UNILA transforma borra de café e resíduos de poda em substrato para cultivo sustentável de cogumelos
Pesquisadores vinculados ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Energia e Sustentabilidade (PPGIES) da UNILA desenvolveram uma alternativa sustentável para o cultivo de cogumelos comestíveis a partir do reaproveitamento de resíduos orgânicos. O estudo avaliou o uso de borra de café e resíduos de poda de gramas ornamentais como substrato para produção de Pleurotus ostreatus, espécie popularmente conhecida como shimeji.
A pesquisa, de autoria de Emilene C. Lourenço, Michel R. Z. Passarini, Márcia R. Becker e Aline T. Toci, foi publicada no International Journal of Food Science and Technology, periódico internacional da Oxford University Press, e partiu de uma questão prática: resíduos gerados diariamente em ambientes urbanos e agroindustriais poderiam ser reaproveitados para produzir alimentos de forma eficiente? Para responder a essa pergunta, a equipe testou diferentes combinações entre borra de café e duas espécies de gramíneas – Zoysia japonica (grama-esmeralda) e Cynodon spp. cv. Tifton 85.
Embora o cultivo de cogumelos do gênero Pleurotus utilizando resíduos agrícolas já seja conhecido pela literatura científica, o diferencial do estudo está justamente na combinação desses materiais, comuns no cotidiano brasileiro, e na avaliação das proporções mais eficientes para o cultivo. Os resultados mostraram que as misturas apresentaram características adequadas para o desenvolvimento dos cogumelos. Já os substratos compostos apenas por grama não permitiram a formação dos corpos frutíferos.
A formulação que apresentou melhor desempenho foi composta por 50% de borra de café e 50% de Zoysia japonica, alcançando eficiência biológica de 106,6% – índice utilizado para medir a capacidade de conversão do substrato em biomassa de cogumelos. O desempenho foi comparável e, em algumas formulações avaliadas pelos autores, superior ao observado em substratos tradicionalmente utilizados nesse tipo de cultivo. Além do rendimento, o estudo identificou que os cultivos realizados com misturas contendo grama apresentaram até três ciclos de frutificação, reforçando o potencial técnico da proposta.
Para a docente Márcia Becker, uma das pesquisadoras, um dos principais resultados está na valorização de resíduos que normalmente seriam descartados. “Nosso trabalho mostra que resíduos urbanos e agroindustriais abundantes podem ser reaproveitados na produção sustentável de alimentos. É uma forma de transformar materiais que normalmente iriam para o lixo em substratos com alto desempenho produtivo”, destaca.
Segundo a pesquisadora, outro aspecto importante é o potencial de adaptação da proposta para diferentes contextos. Embora a reprodução exata das condições experimentais exija procedimentos técnicos e controle rigoroso do cultivo, os princípios podem inspirar iniciativas em agricultura familiar, projetos comunitários, educação ambiental e até experiências domésticas em pequena escala. “A pesquisa se aproxima de questões muito presentes no cotidiano: o aproveitamento de resíduos que normalmente iriam para o lixo, a redução de impactos ambientais, a promoção da economia circular e a produção sustentável de alimentos”, afirma. A pesquisa também reforça um dos princípios da economia circular: manter materiais em uso pelo maior tempo possível, reduzindo desperdícios e diminuindo impactos ambientais.
Desenvolvido no âmbito do PPGIES, o estudo demonstra como pesquisas conduzidas na universidade podem gerar conhecimento científico com reconhecimento internacional e, ao mesmo tempo, contribuir para soluções conectadas aos desafios ambientais e alimentares do cotidiano.

