Pesquisa
Pesquisa da UNILA mostra que maioria dos jovens “nem-nem” inativos no Brasil são mulheres sobrecarregadas pelo trabalho de cuidado
Proporção (%) de jovens nem-nem inativos que declararam afazeres domésticos e cuidado de pessoas como principal motivo de inatividade, segundo sexo. Brasil, 2017-2024.(Fonte: Elaboração própria a partir dos microdados da PNAD Contínua (IBGE))
As mulheres representam quase 70% dos jovens brasileiros classificados como “nem-nem” inativos – aqueles que não estudam, não trabalham e também não estão procurando emprego. É o que mostra a pesquisa "Nem-nem nem tanto: o trabalho de cuidado invisibilizado das meninas brasileiras” , desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Economia, da UNILA. O estudo, realizado pela mestra Karina Costa, identificou que o principal fator associado a essa condição é a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
A pesquisa, orientada pela professora Marcela Nogueira Ferrario, foi elaborada a partir da perspectiva da economia do cuidado, campo teórico que busca compreender o impacto do trabalho doméstico e das tarefas de cuidado – como cuidar de crianças, idosos e pessoas doentes – na reprodução das desigualdades sociais e de gênero. Na análise dos dados, as pesquisadoras identificaram que o cuidado aparece como o principal fator associado à inatividade feminina, mesmo após o controle de variáveis como escolaridade, renda, raça, idade e região do país.

- O trabalho de cuidado reúne atividades essenciais para o bem-estar e a manutenção da vida, como cuidar de crianças, idosos, pessoas doentes e da organização doméstica, geralmente realizado de forma não remunerada
A dissertação utilizou microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua/IBGE) referentes ao período de 2017 a 2024 e concluiu que as mulheres corresponderam, em média, a 69,69% dos jovens nem-nem inativos no período analisado. Entre elas, os afazeres domésticos e as tarefas de cuidado apareceram como a principal razão para não buscar trabalho. “Essas mulheres não estão procurando trabalho porque estão ocupadas demais trabalhando”, resume Karina. “Só que é um trabalho que não é visibilizado e nem remunerado”, completa.
A pesquisa parte da diferenciação entre jovens que não estudam nem trabalham, mas procuram emprego, e aqueles que estão fora da força de trabalho. Para as pesquisadoras, essa distinção é fundamental para compreender a realidade das mulheres jovens no Brasil. “Quando a gente olha especificamente para os jovens nem-nem inativos, percebe que existe um perfil muito característico. São majoritariamente mulheres, de baixa renda, pretas e pardas e, muitas vezes, residentes em áreas rurais”, explica Marcela.
Karina destaca que o estudo buscou justamente questionar interpretações simplificadas sobre o fenômeno dos jovens nem-nem. “Muitas vezes, existe uma culpabilização individual dessas jovens, como se fosse apenas uma escolha pessoal. Mas a pesquisa mostra que estamos diante de um fenômeno ligado às desigualdades estruturais do país”, afirma.
Sem renda, mas com muito trabalho
A pesquisa mostra que realizar tarefas domésticas e de cuidado aumenta em até 19,5 pontos percentuais a probabilidade de mulheres jovens estarem na condição de nem-nem inativas. “A permanência feminina nessa condição não deve ser interpretada como ausência de atividade”, afirma Karina. “Na verdade, ela expressa uma sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado que acaba limitando o acesso dessas mulheres ao estudo e ao mercado de trabalho.”

- Proporção (%) de jovens nem-nem inativos que declararam afazeres domésticos e cuidado de pessoas como principal motivo de inatividade, segundo sexo. Brasil, 2017-2024.(Fonte: Elaboração própria a partir dos microdados da PNAD Contínua (IBGE))
A pesquisa também aponta diferenças importantes entre homens e mulheres. Entre os jovens do sexo masculino, a principal justificativa para não trabalhar está relacionada à ausência de oportunidades de emprego na região onde vivem. Já entre as mulheres, predominam as responsabilidades domésticas e familiares. “Na PNAD Contínua, quando essas mulheres respondem por que não estão procurando trabalho, a principal resposta é justamente estarem ocupadas demais com trabalhos domésticos e cuidado de pessoas”, explica Karina. “Isso muda completamente a interpretação sobre esse grupo.”
Outro resultado identificado pela pesquisa é a forte relação entre vulnerabilidade social e a condição de nem-nem inativo. As maiores incidências foram observadas entre jovens de baixa renda, moradores de áreas rurais e residentes das regiões Nordeste e Norte do país. Segundo Marcela, a pesquisa evidencia como a falta de políticas públicas e de infraestrutura social contribui para a manutenção desse cenário. “Muitas vezes, essas jovens assumem responsabilidades de cuidado porque não existe creche suficiente, porque não há serviços públicos de apoio ou porque a infraestrutura disponível não atende às necessidades das famílias”, explica.
A docente destaca que o fenômeno se mantém ao longo do tempo, mesmo diante de mudanças econômicas e sociais ocorridas no país. “O mais preocupante é justamente a persistência desse quadro. Isso mostra que estamos diante de um problema estrutural, que continua reproduzindo desigualdades sociais e de gênero”, avalia. Marcela também ressalta que os dados utilizados no estudo são representativos da população brasileira. “Nós trabalhamos com uma base muito robusta do IBGE, construída ao longo de vários anos. Isso permite identificar padrões persistentes e compreender melhor as características desse fenômeno no Brasil”, afirma.
Ciência para qualificar o debate público
Para as pesquisadoras, estudos dessa natureza contribuem para ampliar e qualificar o debate público sobre juventude, trabalho e desigualdade social, além de fornecer subsídios para a formulação de políticas públicas. “A culpabilização individual ignora as desigualdades estruturais que organizam esse fenômeno”, afirma Karina. “A gente precisa olhar para essas jovens entendendo o contexto social em que elas estão inseridas.”
A pesquisadora também destaca a importância de ampliar a visibilidade de estudos relacionados à economia do cuidado e às desigualdades de gênero. “A ciência econômica ainda é um espaço muito masculinizado. Então, também é importante produzir pesquisas que tragam essas experiências e essas desigualdades para o centro do debate”, comenta. Marcela ressalta ainda a importância das bases de dados públicas produzidas por instituições brasileiras, como o IBGE, para o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas. “O papel da universidade também é transformar esses dados em conhecimento científico que ajude a compreender os problemas sociais do país”, destaca.
A dissertação está disponível no repositório institucional.
