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Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência: o que precisa mudar?

Integrantes da comunidade acadêmica falam sobre suas rotinas e o que acreditam ser necessário para que a sociedade seja inclusiva
publicado: 21/09/2021 13h44, última modificação: 23/09/2021 09h24

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O Brasil tem 17,3 milhões de pessoas com deficiência, segundo a última Pesquisa Nacional de Saúde, realizada em 2019, pelo IBGE. No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, alguns integrantes da comunidade acadêmica contam os desafios que enfrentam e o que acreditam ser necessário para que tenhamos uma sociedade efetivamente inclusiva. 

 Mais tecnologia e cidades inteligentes

 Cristian David Rada Hernandez, aluno de Serviço Social, tem deficiência visual, siga no YouTube.

Cristian Rada

Qual a principal barreira que você encontra no seu dia a dia?

A maior barreira é a acessibilidade nas ruas, mas também socialmente a acessibilidade na questão de comunicação. Porque, geralmente, quando eu saio com outra pessoa, sempre terminam perguntando para ela dados que eu sei responder. Muita gente não tem essa consciência de que eu posso ter deficiência visual, mas eu posso falar. Essa é a maior barreira junto com a questão da acessibilidade nas ruas, no transporte público.

Quais as mudanças necessárias para a efetiva inclusão das pessoas com deficiência?

Mudar primeiro a política de educação inclusiva nas escolas e universidades. É ter uma cidade mais inteligente na questão dos semáforos, mais elementos com braile, com Libras, e mais tecnologia para facilitar a vida das pessoas com deficiência em geral.

a pior barreira é a atitude das pessoas

Roy Eddie Marquardt Filho, servidor técnico-administrativo, com deficiência física. 

Roy Eddie Marquardt Filho

Quais os principais desafios e dificuldades para as pessoas com deficiência?

A visibilidade. Mesmo com toda a elucidação que o 21 de setembro traz para nós, pessoas com deficiência, para nossas lutas, nossos direitos e conquistas. Costumo dizer que acessibilidade e inclusão não é tema só nosso, das pessoas com deficiência. Porque em algum momento das nossas vidas todos vamos passar por situação de incapacidade ou dificuldade ou limitação. A inclusão é para todo mundo, idosos, gestantes, porque se a gente torna o ambiente acessível, com rampas, elevadores, corrimãos, sinalização [correta], a gente está facilitando para todo mundo. Não só para pessoas com deficiência. 

O que é preciso fazer? 

Nossa luta anticapacitista, nossa luta como pessoa com deficiência, ainda está invisibilizada. A nossa luta deve ser pela remoção das barreiras arquitetônicas, pedagógicas e atitudinais. Como pessoa com deficiência, para mim, a pior barreira de fato é a atitude das pessoas. Quando a sociedade mudar essa atitude e entender que todo mundo pode, aí, sim, a gente vai conseguir remover todas as outras barreiras.

Mas muita coisa melhorou também. Eu cresci num tempo em que as escolas não falavam sobre educação inclusiva. Eu queria mudanças e estou vendo essas mudanças acontecerem, mesmo que a passos lentos. Poder contar minhas experiências é porque as pessoas estão preocupadas em me ouvir e ouvir outras pessoas com deficiência. A legislação melhorou também, as empresas vêm se preocupando mais e essa preocupação vem se expandindo. Estamos bem longe do ideal, mas há um despertar.

 Alteridade para gerar mudanças

Elaine Silva Rodrigues, estudante do quarto ano de Serviço Social, pessoa com baixa visão.

Elaine Silva RodriguesQual a principal barreira que você encontra no seu dia a dia?

Existem muitas barreiras, mas a principal que estou enfrentando – como não estou saindo como saía antes, quando a gente encontrava a falta de acessibilidade, as atitudes ruins de algumas pessoas – é que eu sinto agora algo que eu sentia bem antes de conhecer outras pessoas com deficiência, antes de passar a estudar, que é um misto de medo com impotência. Eu achei que havia superado, mas a pandemia meio que trouxe isso de volta, e eu estou lutando para que esse sentimento não me pare, para que quando chegar o tempo de retomar as atividades, tanto ir para a universidade, quanto fazer outras atividades que eu fazia, atividade física – eu jogava, podia encontrar os amigos –, que eu possa fazer isso e sair com segurança. Eu sei que tem coisas que fogem ao nosso controle, mas [quero me] sentir segura, não sair com esse sentimento. Estou trabalhando para que isso acabe de vez.

Quais as mudanças necessárias para a efetiva inclusão das pessoas com deficiência?

Sobre as mudanças, eu vejo uma principal, que é a alteridade. Porque penso que através dela outras virão. Se a gente fizer o exercício de alteridade, se a gente conseguir se colocar no lugar do outro, acredito que muitas mudanças aconteceriam, e as pessoas com deficiência, os idosos, as mulheres grávidas, todas as pessoas que têm necessidades especiais seriam beneficiadas. Acho que é o exercício da alteridade, a prática no dia a dia, é querer. É fazer como se fosse pra você ou um filho seu.

“Mais

Jacson Andrei Peruzzo, estudante de Medicina, deficiente físico.

Qual a principal barreira (física, social, comportamental) que você encontra no seu dia a dia?

Existem diversas questões, como a falta de acessibilidade (barreiras arquitetônicas, que são as mais comuns). As pessoas acreditam que o fato de ter rampas ou banheiros dedicados às pessoas com deficiência é ter acessibilidade, mas não. O que se encontra geralmente são rampas onde é necessário ajuda de terceiros para poder subi-las, banheiros que ao adentrar não se consegue fechar as portas por serem mal projetados, entre outros. No entanto, a maior das barreiras, sem dúvidas, é o preconceito e o tabu relacionado ao sexo. As pessoas acreditam que, pelo fato de estarmos sobre uma cadeira de rodas, não temos vida sexual, o que é uma enorme mentira. As pessoas com deficiência também têm vida sexual ativa, com algumas limitações em certas posições, é claro. Afinal, sexo é pra ser algo prazeroso e não um espetáculo acrobático do Cirque du Soleil (risos).

Jacson Andrei PeruzzoVocê faz Medicina. O que você diz/diria às pessoas que eventualmente fiquem surpreendidas com isso? 

Olha, não vou negar que eu também pensava isso. Quando eu sofri o acidente em 2015, que me tornou paraplégico, eu pensei que minha vida e meus sonhos tivessem acabado e que tudo seria impossível a partir dali. No entanto, com o passar do tempo fui percebendo que as maiores limitações são criadas pela nossa mente e que tudo isso é relativo à nossa vontade. O fato de estar sobre uma cadeira de rodas não me impede em nada de realizar as atividades que antes eu realizava. Dessa forma, terminei minha graduação em Biomedicina e voltei a estudar para realizar meu sonho de ser médico.

Para você, quais as principais mudanças necessárias para a efetiva inclusão das pessoas com deficiência?

Além das mudanças para melhorar a estrutura física dos lugares, de forma a permitir autonomia no acesso e segurança, creio que dando mais visibilidade às conquistas e qualidades das pessoas com deficiência. Percebo que existe uma romantização do coitadismo e da vulnerabilidade, o que traz uma visão equivocada de incapacidade das pessoas com deficiência. Isso causa um certo preconceito nas pessoas por acharem que não temos capacidade de assumir deveres, compromissos, trabalhos e desempenhá-los com qualidade. Mas, na verdade, somos capazes sim e queremos espaço para mostrar isso.

“Políticas

Maria de Lourdes Aquino Echeguren (Paraguai), aluna de Serviço Social, deficiente física.

Maria de Lourdes Aquino EchegurenQual a principal barreira que você encontra no seu dia a dia?

As barreiras físicas, como as calçadas, a falta de rampas, a maioria dos banheiros que não estão adaptadas. Às vezes, pegar um uber ou táxi fica difícil. Os motoristas veem ou sabem que é cadeirante, e não levam a cadeira, mas não posso ir sem a cadeira. As plataformas dos ônibus muitas vezes não funcionam, ou o pessoal não está capacitado para manipular. Também, às vezes, as pessoas me tratam como coitadinha ou incapaz de poder até estudar.

Quais as mudanças necessárias para a efetiva inclusão das pessoas com deficiência?

O Brasil é muito mais avançado que o Paraguai em termos de políticas públicas para as pessoas com deficiência, mas, ainda assim, é preciso que elas saiam do papel, que possam ser fiscalizadas, ou seja, que alguém fiscalize, porque não adianta ter leis, políticas, programas que garantam direitos à pessoa com deficiência, sendo que, muitas vezes, só ficam no papel. Também é importante que a sociedade deixe de excluir qualquer pessoa só pelo fato de ter uma deficiência. As barreiras foram criadas pelos homens, então, muitas vezes, esse diálogo, esses espaços de discussão sobre o tema estão ausentes, ficam de lado. Fragmentamos as lutas, o que leva a enfraquecer o empoderamento dos movimentos.

 Inclusão e direito linguístico

Nahla Yatim, docente de Libras, deficiente auditiva.

Como foi sua formação? Há quanto tempo você leciona?

Minha formação foi excelente, pois o curso de Letras Libras (2006) foi a primeira turma do curso, que era a distância. Os conteúdos eram em Português e em Libras, e todos os materiais eram nos dois idiomas. Os professores, em sua maioria, eram surdos. Havia alguns ouvintes bilíngues que sabiam Libras e havia aqueles que não sabiam Libras, mas nessas disciplinas havia intérprete de Libras. Era tudo voltado aos surdos, sendo inteiramente acessível. Atuo há nove anos no ensino superior lecionando a disciplina de Libras.

Nahla YatimPara você, que mudanças são necessárias para que a sociedade se torne, efetivamente, inclusiva?

O principal é o meu direito linguístico como surda. A sociedade precisa aprender a Libras para facilitar o processo de comunicação, pois se vou a um restaurante sozinha, muitas vezes, os atendentes não sabem como conversar comigo, me atender e registrar meu pedido, sendo que isso se repete em muitos lugares que qualquer pessoa surda vá, seja mercado, farmácia, lojas. Sempre preciso ensinar como as pessoas precisam se comunicar comigo, pedindo para elas escreverem num papel. Sendo que a situação piora quando tratamos de lugares específicos, como hospitais e delegacias. Eu, há poucos dias, fui ao hospital municipal com meu noivo para fazer teste de Covid. Como fiquei em sala de espera para fazer o teste, muitos médicos vinham, falavam comigo, eu explicava que era surda. Eles faziam cara feia e iam embora, e eu sem saber o que aconteceu. Fiquei das 17 até as 21h no hospital pra fazer o teste e eles não deixavam meu noivo entrar para explicar o que aconteceu e interpretar a conversa com o médico. Então, há muito o que mudar. É preciso que todas as instituições públicas e privadas tenham profissionais proficientes em Libras para garantir a acessibilidade dos surdos. Conscientizar as pessoas, convidar pessoas surdas da área acadêmica para ministrar palestras e difundir a Libras na sociedade.

E nas escolas (de todos os níveis), quais barreiras ainda precisam ser vencidas?

Em resumo, a situação em Foz do Iguaçu atualmente condiz com a consolidação de surdos no Mitre, atualmente colégio militar. A maioria dos adolescentes surdos estudava no Mitre, pois havia intérprete. Entretanto, os professores não têm uma preocupação em adaptar materiais para os surdos, em ter uma metodologia de ensino para surdos, que é diferente da metodologia de ensino para ouvintes. Com a mudança para colégio militar, muitos surdos preferiram estudar em outro colégio. Com isso, houve a falta de intérpretes, pois agora os surdos estão espalhados nas escolas da cidade e não consolidados em uma só.

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