Pesquisa
Pesquisador registra em imagem os impactos da Perimetral Leste e Rodovia das Cataratas
Acompanhar de perto as transformações provocadas pela construção da Rodovia Perimetral ligando a BR 277 à Ponte da Integração e a duplicação da Rodovia das Cataratas (BR 469) foi tema da pesquisa de mestrado de Manuel Joseph Corman. Francês, com residência no Brasil há mais de 14 anos e morando na região das obras, Corman fez da arte visual o instrumento para registrar e entender as profundas mudanças em seu cotidiano e o impacto ambiental das duas obras.

- Manuel Corman em seu ateliê: luta contra o “apagamento” _ Foto: Moisés do Nascimento Bonfim SECOM/Unila
Manuel Joseph Corman acompanhou de perto as transformações provocadas pela construção da Rodovia Perimetral e a duplicação da Rodovia das Cataratas (BR 469). A fotografia e o vídeo foram as ferramentas que o francês, residente na região das obras, utilizou para registrar e entender as profundas mudanças em seu cotidiano e o impacto por elas provocados. Seus registros foram tema de sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (ICAL).
Morador do bairro Mata Verde, Corman tinha por hábito fotografar a região e as atividades familiares. “Desde que chegamos ao bairro Mata Verde em 2015, vivenciamos muitas transformações. Mas foi a partir de 2021, ainda durante o período da pandemia de Covid, que começou uma mudança mais profunda, com a chegada da obra da Perimetral Leste. O desmatamento começou de repente e, como sempre fiz, continuei registrando”, conta. Em seu trabalho ele comenta que o “lugar tinha vida, aves, árvores, córregos”. “Era um refúgio natural na cidade. Hoje, essa trincheira na floresta virou um corredor de caminhões e máquinas pesadas.”

- Máquinas e operários na Rodovia das Cataratas Foto: Manuel Corman
|
|
Ele passou o ano de 2022 fora de Foz e, no retorno, no ano seguinte, veio a decisão de cursar o mestrado e desenvolver um trabalho ligado a esse território em transformação. “Acabamos não vivenciando os piores momentos do desmatamento. Talvez tenha sido uma sorte. Teria sido muito doloroso acompanhar tudo de perto. Voltamos a Foz no início de 2023 e encontramos a floresta atrás de nossa casa rasgada pela obra”, comenta. “A partir de então, passei a registrar mensalmente as duas grandes obras.”
Corman relata que todos os dias precisava atravessar o canteiro de obras da duplicação da Rodovia das Cataratas para levar o filho à escola. “Mas minha relação com a Perimetral era diferente: ela nos atingia diretamente. Quando os caminhões e máquinas invadiram o ambiente sonoro e a terra começou a tremer, o único jeito de sair daquele estado de paralisia foi pegar minha câmera e registrar.”
Essa foi a forma que ele encontrou para sair de um lugar de passividade “Claro que temos uma sensação de impotência, mas, mesmo assim, é uma forma de se posicionar diante do que estava acontecendo”, analisa. “Não escolhemos esse tipo de desenvolvimento para o lugar onde vivemos, mas quando estava indo para o mundo das máquinas era uma forma de mostrar que tem pessoas que estão morando aqui. Registrar virou uma forma de agir, de me reconectar com o território e de não aceitar o apagamento que acontece muito em Foz do Iguaçu.”
Quando se mudou com a família para a casa onde moravam, a ideia era ter mais que uma residência, mas um local de refúgio. “O canteiro de obras transformou nosso bairro num verdadeiro campo de batalha”, diz. “E conviver com essa paisagem caótica e o barulho constante deixa um gosto amargo sobre a ideia contemporânea de progresso.”
Para ele, os traçados das duas obras ignoraram os habitantes para atender interesses globais. “O território é pensado muitas vezes de fora para dentro. A escolha desse traçado nunca foi explicado com clareza para os moradores. Havia alternativas com menor impacto, mas a opção foi o desmatamento. Destruir o território parece, infelizmente, ser a escolha de nossa sociedade.”
Os quatro anos de registro das obras compuseram a exposição Self (Y) GuaSSu, realizada em dezembro. Ele conta que, além das dificuldades de observar as obras avançando, também teve como desafio a rotina e metodologia acadêmicas. “Quando você é diretamente afetado pelo assunto da pesquisa, é difícil manter a distância necessária para estudar e analisar”, pondera. “Em 2024, passei por esse processo: mesmo continuando a registrar, me afastei quase totalmente do mestrado por um tempo. Pensei em desistir. Mas, no fim, continuei. Parecia um desperdício enorme ter vivido tudo aquilo, registrado tanta coisa, e deixar tudo guardado apenas no meu HD.”
Corman apresentou sua dissertação de mestrado no final de 2025. Em janeiro deste ano, ele sua família se mudaram do Mata Verde. “A obra certamente teve um papel nisso, sobretudo porque nossa casa ficou quase sem acesso por causa dos canteiros. Mas a mudança também foi uma decisão familiar, estamos tranquilos.”
|
![]() |
Saiba mais
Leia a dissertação e veja outras fotos feitas por Manuel Corman




