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Pesquisa avalia literatura distópica no Brasil e Argentina

Gênero vem apresentando crescimento nos últimos anos, acompanhando mudanças nas estruturas sociais
publicado: 03/08/2026 08h13, última modificação: 30/07/2026 17h55
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Antonio Guizzo: as distopias nascem dos medos

Em um mundo em que o autoritarismo, a desinformação, as crises ambientais e a polarização política estão cada vez mais próximos da realidade diária as distopias dialogam com o presente para apresentar um futuro que já não está tão distante. As distopias, ou a literatura do fim do mundo, são temas de pesquisas conduzidas por Antonio Rediver Guizzo, docente do Programa de Pós-Graduação em Literatura Comparada.

Ele investiga, principalmente, a literatura distópica produzida no Brasil e na Argentina, a partir do ano 2000, momento em que esse gênero começa a ganhar escala. “Os autores já não conseguiam mais expressar o fenômeno das estruturas da violência social brasileira e argentina de uma forma realista. Nesse momento, começaram a utilizar elementos das distopias e do terror, que também está muito em voga hoje”, comenta o pesquisador. A percepção da mudança dos rumos literários surgiu a partir de duas obras analisadas por Guizzo: Reprodução, de Bernardo Carvalho; e Luxúria, de Fernando Bonassi.

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Antonio Guizzo: as distopias nascem dos medos

A história de Carvalho gira em torno de um personagem de extrema-direita, envolto por teorias da conspiração e notícias falsas e que acaba resultando em diferentes ódios. Isso tudo em 2013, quando as mídias sociais ainda não tinham o alcance que têm hoje. “Dentro da nossa ideia educadora, pensamos, quando a internet surgiu, que seria uma ferramenta extraordinária para transformar as pessoas. Seria um novo momento do iluminismo. De repente, começamos a perceber que a internet também pode ser uma grande ferramenta de obscurecimento do conhecimento humano, uma forma de imbecilizar mesmo”, pontua.

Em Luxúria, Bonassi mostra que a ascensão social e a melhor distribuição de renda obtidas em governos progressistas também podem desandar em violência a partir do consumo sem consciência. “Em 2014, ele faz uma reflexão semelhante à que se faz na sociologia que é o pobre de direita.” No livro, um operário tem como sonho de consumo e ascensão a construção de uma piscina em casa, mas, a partir daí, se vê envolvido em uma série de problemas. “Essas obras não são consideradas distópicas, mas elas têm elementos que já estão dialogando com esse gênero, de certa forma.”

Guizzo explica que estuda a literatura como fruto das condições materiais da sua época. “Sempre vai, de certa forma, ser uma figuração, uma representação do social e não apenas uma história fictícia.” Uma das formas de compreender o que é a distopia, comenta o pesquisador, está na contraposição com o conceito de utopia, proposto pelo filósofo inglês Thomas More. “A utopia seria o lugar bom, daí a distopia como um lugar ruim”, diz. “Nesse sentido, no imaginário religioso, a utopia seria o paraíso e a distopia, o inferno”, exemplifica.

As chamadas distopias clássicas, como 1984, de George Orwel, lançada em 1949, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, de 1932, substituem eventos fantásticos ou religiosos por governos autoritários para construir o mundo negativo. “O que constitui esse mundo distópico são questões sociais, governos totalitários e tecnologias utilizadas como meio de vigilância e coerção e controle da população. Podemos colocar as distopias contemporâneas como uma perspectiva de construção de um universo disfuncional, disforme, violento, autoritário a partir das questões sociais”, discorre Guizzo.

Nas distopias, a violência ultrapassa a individualidade. “Nós temos essa violência das multidões, das massas raivosas movidas pelo ódio. Essa grande perspectiva de haver um inimigo em quem colocar a culpa de tudo, para atacá-lo e para justificar qualquer coisa que aconteça de ruim dentro da sociedade. É uma visão fantasmagórica do outro.”

Outros medos

A partir do final do século XX e início do XXI, explica o pesquisador, as distopias passam a adotar pautas com questionamentos sociais mais delimitados como o feminismo – O Conto da Aia, de Margaret Atwood –, os direitos dos animais – Cadáver Exquisito, de Agustina Bazterrica –, o etarismo – Velhos Demais para Morrer, de Vinícius Neves Mariano –, e a destruição ambiental – Distância de Resgate, da Samanta Schweblin – entre outros temas. “Essas obras começam a olhar dentro da sociedade. Os autores estão buscando mostrar esses futuros distópicos em temas mais circunscritos. Se formos pontuar algo que está presente nas distopias, de forma geral, é o autoritarismo político. A partir dessa ideia do autoritarismo político, essas distopias vão se desdobrando, vão aparecendo outros temas.”

Guizzo ressalta que as distopias nascem de um “diagnóstico do presente” para apresentar histórias que se desenvolvem em um tempo futuro. Esse diagnóstico, diz, vem sempre acompanhado pelo temor de mudanças negativas. “As distopias nascem do medo do que se desenha no presente. E esse medo muda. Os medos religiosos, naturais e míticos deram lugar aos medos sociais. Nascem dessa percepção de que as coisas estão caminhando para um lugar não muito bom.”

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Nas distopias mais atuais, aponta o pesquisador, há uma maior proximidade temporal e espacial com o nosso tempo. “1984 foi escrito em 1949 e descrevia um cotidiano 35 anos à frente. Em A Extinção das Abelhas, de Natalia Borges Polesso, a história parece que pode acontecer no ano que vem”, exemplifica. “A distopia parece estar cada vez mais próxima de acontecer. As histórias de fim do mundo já não estão tão distantes, estão muito próximas. Alguns autores continuam trabalhando com elementos de ficção científica e construindo sociedades muito diversas para fazer a sua representação, mas muitos já fazem essa representação numa sociedade que poderia ser a de amanhã.”

Guizzo analisa as distopias contemporâneas do Brasil e Argentina no livro Histórias do Fim do Mundo – Como nascem as distopias?, resultado de estudos que vem desenvolvendo. “Vejo que há muita proximidade na história dos dois países, na história política dos dois países. A produção literária caminha também muito próxima”, pontua. O estudo está estruturado em três eixos centrais: autoritarismo e neoliberalismo, precarização do trabalho e degradação ambiental.

Para ele, há uma perspectiva de crescimento de histórias dentro deste gênero. “Há um caos social do qual têm surgido e ainda vão surgir muitas narrativas distópicas e também de terror, que está sendo usado muito na atualidade para a representação dos nossos traumas sociais, das nossas fissuras sociais”, analisa.