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Documentário dirigido por docente da UNILA resgata memória quilombola no sertão paraibano

Série "Navio do Sertão", dirigida pela professora Patrícia Pinheiro, articula memória, território e direitos a partir da história de comunidades quilombolas da Paraíba
publicado: 30/03/2026 09h00, última modificação: 27/03/2026 10h08
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Série já está disponível na plataforma Prime Video

A série documental Navio do Sertão, dirigida pela docente da UNILA Patrícia Pinheiro, lança um olhar sensível sobre a história de comunidades quilombolas do município de Coremas, na Paraíba. Composta por quatro episódios, a obra revisita memórias de um território submerso e articula passado e presente na luta por direitos. 

A narrativa parte da história da comunidade quilombola do Navio, que foi inundada na década de 1930 com a construção de um grande complexo hídrico na região. Além de trabalharem na obra que transformou o território, os moradores receberam a promessa de reassentamento - nunca concretizada.

Com uma abordagem que combina memória oral, imagens e elementos poéticos, a série busca reconstruir a história a partir das vozes dos próprios quilombolas. Ao todo, a produção reúne relatos de moradores e lideranças locais, evidenciando tanto os processos históricos de deslocamento quanto as permanências culturais e as formas de resistência.

Segundo a diretora, o projeto nasce de uma relação direta com as comunidades e de demandas concretas ligadas ao território. “É uma situação de muita vulnerabilidade e muita luta também. Essa é a parte bonita: eles não desistem de lutar pelo território, pelas raízes, pelas tradições”, afirma.

Patrícia destaca ainda que a construção narrativa buscou equilíbrio entre as dificuldades enfrentadas e a riqueza cultural das comunidades. “As dificuldades existem, mas não é só isso que define as pessoas. O que define é o conhecimento, o saber, a beleza, a alegria. A gente quis não mostrar só uma história de peso e de tristeza”, explica.

Ensino, pesquisa e extensão

Pré-lançamento em Coremas, como forma de devolutiva do trabalho ao quilombo

A série integra o projeto de extensão Histórias de Quilombo, coordenado por Patrícia Pinheiro desde 2016. A iniciativa articula ações de pesquisa, formação e assessoria junto a comunidades quilombolas em diferentes regiões do país, incluindo Paraíba, Rio Grande do Sul e Paraná.

O projeto teve início no Quilombo Rincão das Almas (RS) e, posteriormente, passou a atuar na Paraíba com oficinas de audiovisual voltadas a estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Desde 2020, mantém parceria com a União das Comunidades Quilombolas de Coremas e com a Associação Quilombola de Santa Tereza, desenvolvendo atividades nas áreas de educação para relações étnico-raciais, defesa de direitos e projetos produtivos. “É um trabalho que entrelaça memória, patrimônio e acesso a direitos, sempre construído junto com as comunidades”, resume a docente.

No Paraná, as ações mais recentes envolvem apoio a processos de regularização fundiária e iniciativas de valorização da memória, como a revitalização da Casa de Memória Rafaela Correia, no Apepu, incluindo a implantação de um herbário e de um jardim de plantas medicinais. 

O audiovisual constitui uma das frentes do projeto, que adota estratégias integradas — orais, visuais e escritas — para trabalhar memória, patrimônio material e imaterial e acesso a direitos. Patrícia Pinheiro integra o Comitê de Antropologia Visual da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e coordena o GT Antropoéticas da Associação Latino-Americana de Antropologia (ALA), articulando pesquisa acadêmica e produção audiovisual.

Segundo a docente, a atuação junto às comunidades também envolve assessoria a projetos. “Já captamos recursos em mais de dez iniciativas, com gestão feita diretamente pelas comunidades”, destaca. Atualmente, ela desenvolve novos projetos na área audiovisual, incluindo uma produção sobre a comunicação entre árvores, no âmbito de seu terreiro, e uma animação infantojuvenil baseada em entidades das matas, como a Comadre Florzinha e o Pai do Mangue.

Acessibilidade

A produção de Navio do Sertão contou com a participação de diferentes setores da UNILA, especialmente nas ações de acessibilidade. Contribuíram a Secretaria de Ações Afirmativas e Equidade (SECAFE), o Departamento de Acessibilidade e Inclusão da Pessoa com Deficiência (DAIPCD), o Departamento de Relações Étnico-Raciais e Diversidade Cultural (DRERC) e a Secretaria de Comunicação Social (SECOM). 

A equipe envolvida incluiu profissionais e estudantes da universidade, com atuação em consultoria de acessibilidade, interpretação em Libras, captação e elaboração de audiodescrição. Entre os participantes estão Anyie Lorena Cajamarca Torres, Luis Miguel Bernardo, Natan Reis Azarias, Patrícia Regina Cenci Queiroz e Roberto Bernal Mazacotte. A captação de Libras foi realizada por Rodrigo Birck Moreira (SECOM/UNILA), e o roteiro de audiodescrição ficou a cargo de Luis Miguel Bernardo.

Exibições e circulação

Série já está disponível na plataforma Prime Video

Antes do lançamento oficial, a série teve pré-exibições em Foz do Iguaçu, em espaços vinculados a comunidades tradicionais e culturais, como o Quilombo da Horta do Seu Zé e Dona Laide, o Ilê Axé Baru, além das exibições no Jardim Universitário e Campus Integração. Na Paraíba, também foram realizadas exibições em Coremas, junto às comunidades quilombolas retratadas na série, como parte do processo de devolutiva do projeto. A circulação da obra dialoga com a própria proposta do projeto, priorizando o retorno às comunidades e a construção coletiva dos processos de exibição.

A série já está disponível na plataforma Prime Video e em breve também constará na Eduplay.

Memória, território e direitos

Mais do que um registro histórico, Navio do Sertão se insere em um debate mais amplo sobre os impactos da diáspora africana no Brasil e as desigualdades estruturais que ainda afetam comunidades quilombolas, especialmente no acesso à terra, à educação e a políticas públicas. Ao recuperar a história de uma comunidade submersa, a série evidencia processos recorrentes de invisibilização e deslocamento. Ao mesmo tempo, reafirma a centralidade da memória e da organização coletiva na luta por reconhecimento e direitos.

A diretora também ressalta o caráter coletivo da produção. “Esse trabalho foi construído junto com os quilombolas. Eles participaram das decisões, dos caminhos, das escolhas. Isso fez toda a diferença no resultado final”, conclui.

Pré-lançamento no Jardim Universitário