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A volta do Talibã ao poder no Afeganistão é tema do ¿Qué Pasa?

O professor de Relações Internacionais e Integração Mamadou Alpha Diallo fala dos fatores que levaram à retomada e sobre o que se pode esperar para o futuro do país
publicado: 24/08/2021 16h00, última modificação: 24/08/2021 16h01

“A população está sempre acuada, seja por uma força estrangeira, seja por uma força interna. Não acredito que [a retomada] vai ser pior, que o Talibã que chega ao poder vá tornar a vida desse cidadão mais caótica”. A reflexão é de Mamadou Alpha Diallo, docente do curso de Relações Internacionais e Integração, convidado pela SECOM para uma conversa sobre a retomada do Afeganistão pelo Talibã. O episódio faz parte da série ¿Qué Pasa? e pode ser assistido na íntegra no canal da UNILA no YouTube.

O mundo foi surpreendido pela rapidez na retomada do poder pelo Talibã no Afeganistão, após duas décadas de ocupação pelos Estados Unidos. “A gente vê com rapidez a retomada do poder no Afeganistão, porque a gente somente enxergou a partir do momento da saída dos americanos”, comenta o professor, lembrando que, na realidade, este é um processo longo e que, efetivamente, o Talibã nunca deixou de existir. “A presença norte-americana no Afeganistão não desmobilizou o Talibã”, reforça Mamadou.

O grupo, diz ele, por mais que tenha sido acuado, entre 2001 e 2003, ainda se manteve mobilizado em todos esses anos. “É preciso lembrar que a luta do Talibã é por independência e libertação nacional e, por isso, tem apoio popular muito grande, uma aceitação dentro da sociedade afegã e regionalmente também.” Do ponto de vista ideológico, essa luta, que tem como fundo a luta pela liberdade e pela fé, fortalece o Talibã. “Essa psicologia militar contribuiu também para a retomada.”

Outro elemento que contribuiu para a retomada está relacionado aos objetivos dos Estados Unidos para a invasão: expulsar o Talibã do poder em um primeiro momento e, em seguida, eliminar Osama Bin Laden. Pontos que foram alcançados, embora com um pouco mais de demora no caso de Osama Bin Laden, que só foi capturado e morto dez anos após os atentados nos Estados Unidos.

Um terceiro ponto que contribuiu para que o Talibã fosse se fortalecendo ao longo dos anos, cita Mamadou, foi o não cumprimento de um dos objetivos da invasão norte-americana: a reconstrução do Afeganistão. “Essa reconstrução não aconteceu. E isso vai levar a população a desacreditar da presença estrangeira no Afeganistão”, avalia.

Para Mamadou, a retomada pode não ser tão traumática para a população. As imagens iniciais recebidas pelo Ocidente, lembra o professor, muitas vezes servem para a comoção, para formar uma imagem inicial. “Na realidade, não sei se a situação da população afegã será pior que antes”, reflete. O Afeganistão, diz, vem vivendo uma situação difícil desde a invasão soviética, em 1979. “A população está sempre acuada, seja por uma força estrangeira, seja por uma força interna. Do ponto de vista da violência e da violação dos direitos individuais, é uma população que vem sofrendo [há tempos]. Não acredito que [a retomada] vai ser pior, que o Talibã que chega ao poder vá tornar a vida desse cidadão mais caótica. A situação deve, senão melhorar, permanecer a mesma”, comenta, completando que qualquer intervenção militar, como a que aconteceu no país, é muito violenta e, por vezes, não é mostrada. “Se fala muito no direito das mulheres. Em zonas de conflitos, mulheres e crianças são sempre vítimas”, reforça.

Avaliando responsabilidades, Mamadou afirma que os americanos são responsáveis não só pelo que acontece no Afeganistão, mas de tudo que acontece no Oriente Médio a partir da década de 1990. E isso levou ao agravamento dos conflitos na região. “As guerras foram pulando de uma área geográfica a outra, mas nunca cessaram.” Um ponto negativo dessa realidade é o aparecimento de grupos como o Estado Islâmico. “[A invasão] cria um caos e deixa pista livre para uma guerra civil”, afirma.

Sobre uma possível postura mais moderada do Talibã, Mamadou vê a pressão internacional como um dos fatores que influenciam esse pensamento e, ainda, a própria leitura – atenta – que o grupo faz da conjuntura internacional atual. “A moderação é normal. Eles vão ter que seguir essa onda, se inserir nesse contexto para poderem ser aceitos no sistema internacional. Sem o reconhecimento do sistema internacional, o Talibã não vai resistir”, acredita.

Outra possibilidade, diz Mamadou, é um agravamento da situação a partir de atuações indiretas das potências internacionais no fomento a manifestações contrárias ao Talibã dentro do país, culminando com um conflito na proporção do que ocorre hoje na Síria. “Com o contrapeso da China e Rússia pode ser que haja menos intervencionismo, e uma certa tranquilidade para que o Talibã governe. Se isso ocorrer, vai ser um novo momento do Afeganistão, que será o de reconstrução.”

Para Mamadou, o Talibã, para se legitimar, também vai tentar se distanciar de práticas condenadas pelo sistema internacional. “Como é que você vai diferenciar um governo autêntico, reconhecido, de um grupo que age de forma clandestina como o Estado Islâmico, por exemplo? Eles não podem se comportar do mesmo jeito”, pondera. “Para se inserir no sistema internacional, eles terão de ser moderados. Não tem outra forma.”

O docente reforça que o interesse do Talibã, hoje, não é o de promover o terrorismo, mas o desenvolvimento, a busca da independência do território e a autonomia do Afeganistão. “Eles têm interesse em estabilizar seu país, permanecer no comando, e isso somente vai acontecer se houver um compromisso com o sistema internacional.”

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