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“Nos últimos seis anos, não houve política indigenista no Brasil”

Em entrevista ao ¿Qué Pasa?, professor Clovis Brighenti explica as causas da crise humanitária dos povos Yanomami e como outros grupos indígenas também estão sendo afetados
publicado: 14/02/2023 16h51, última modificação: 14/02/2023 16h51

Desde o final do mês de janeiro, notícias sobre a grave crise humanitária dos povos Yanomami têm sido destaque na imprensa nacional e também em veículos de comunicação internacionais. Apesar da repercussão recente, para o professor da UNILA na área de História das Sociedades Indígenas na América Latina, Clovis Brighenti, esses fatos não são novidade. Durante entrevista ao programa ¿Qué Pasa?, Brighenti disse que, nos últimos anos, diversas organizações da sociedade civil vêm denunciando as graves consequências da presença do garimpo nas terras indígenas. “Para se ter uma ideia, nos últimos quatro anos já foram seis decisões judiciais, incluindo uma medida cautelar da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, cobrando do governo brasileiro medidas efetivas de proteção ao povo Yanomami”, salientou.

De acordo com o docente, a crise humanitária está diretamente relacionada com a falta de políticas públicas. “Nos últimos seis anos, não houve política indigenista no Brasil. Não houve demarcação de terra, não houve incentivo para a geração de renda, as comunidades indígenas foram deixadas em uma situação de abandono em que elas se veem obrigadas a ceder suas terras para o garimpo e para outras formas de exploração ilegais”, relatou Brighenti.

O problema se agravou ainda mais com ações que impediram que os agentes do estado atuassem na região das terras indígenas Yanomami. “Se passaram poucos dias desde que o estado brasileiro tomou para si a responsabilidade de zelar pelos povos indígenas Yanomami, mas todos os elementos apurados até agora demonstram que o que aconteceu nos últimos anos foi uma ação deliberada, planejada. Não foi obra do acaso”, disse o professor, alertando ainda que, embora a situação dos Yanomami seja mais grave, há cenários semelhantes em terras indígenas de outras regiões. No Sul do país, por exemplo, o arrendamento de terras indígenas para o agronegócio está expondo comunidades indígenas a agrotóxicos e travando conflitos por terras que já levaram a vida de lideranças de Guaíra, Diamante do Oeste e da terra indígena Serrinha, no Rio Grande do Sul.

“A gente espera que, com a criação do Ministério dos Povos Indígenas e com uma indígena assumindo a Funai, esse cenário possa ser alterado, mas a gente sabe que não é um governo ou um ministério que vai resolver a questão. Há um desequilíbrio de forças entre o capital, que deseja a exploração dos territórios, e a resistência dos povos. Então não vai ser fácil fazer com que a Constituição Federal seja cumprida como deve ser”, conclui o pesquisador.

A entrevista na íntegra está disponível no canal de Youtube da UNILA. 

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