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GT da UNILA estuda dinâmicas da pandemia em diferentes cenários de isolamento social

Primeiro relatório mostra que isolamento vertical não teria resultado eficaz em Foz do Iguaçu e pede cautela na reabertura de instituições de ensino
publicado: 18/06/2020 09h24, última modificação: 18/06/2020 09h24

Desde o início de abril, um grupo de docentes da UNILA e de profissionais de saúde de Foz do Iguaçu trabalha de forma conjunta aplicando modelos matemáticos para tentar fazer projeções da propagação da Covid-19 no município e na região trinacional. Nesta semana, o grupo de trabalho divulgou o primeiro relatório que avalia como seria a evolução do número de infectados por SARS-CoV-2 em diferentes cenários de isolamento social. Uma das conclusões do estudo é que o chamado isolamento vertical - focado exclusivamente em idosos e pessoas dos grupos de risco - seria ineficaz para conter a pandemia do novo coronavírus em Foz do Iguaçu. O documento também pede cautela na reabertura de locais voltados para atividades de lazer, além de escolas e universidades. Acesse aqui o relatório na íntegra. 

O professor Luiz Roberto Ribeiro Faria Júnior é docente do curso de Ciências Biológicas da UNILAO estudo usa como base o modelo matemático epidemiológico SEIR-Net, que vem sendo muito utilizado ao redor do mundo para entender as dinâmicas da Covid-19. Nesse modelo, as pessoas são divididas em quatro compartimentos: Suscetíveis (podem ser infectadas pela doença), Expostas (tiveram contato com o vírus, mas ainda não o transmitem), Infectadas (têm a doença e podem infectar outras pessoas) e Removidas (que não podem mais contrair a doença nem transmiti-la para os demais). O professor Luiz Roberto Ribeiro Faria Junior, autor principal do estudo, alerta que os resultados das projeções são qualitativos. “Como ainda não temos muitos dados de testagem, a definição dos parâmetros para uma análise quantitativa ainda é um pouco complicada. Mas, a análise qualitativa permite fazer comparações entre cenários de forma robusta”, explicou.

O modelo SEIR-Net permite estudar alguns cenários de isolamento e distanciamento social, com foco em grupos específicos. Na pesquisa do GT da UNILA, os grupos foram divididos pela fração de cada faixa etária da população de Foz do Iguaçu.

Isolamento de 70% da população é o ideal, mas existem outras alternativas

A principal conclusão do estudo é que o isolamento social deve ser a estratégia central para o controle da Gráfico mostra curva da Covid-19 sem nenhuma política de isolamento socialvelocidade e da intensidade do pico de infecção pelo Sars-Cov-2. Pelas projeções realizadas, o cenário ideal de isolamento seria de, pelo menos, 70% em todas as faixas etárias. Essa é porcentagem de isolamento que seria capaz de mudar a dinâmica de infecções e achatar, de fato, a curva de contágio. "Os efeitos são mais pronunciados quando se passa de 60% para 70% do isolamento, do que de 70% para 80%, por exemplo", disse Faria Júnior.

Porém, o pesquisador salienta que isso não implica, necessariamente, que o isolamento deve ser de 70% em todas as faixas etárias. “Se houver uma redução mais significativa em algumas faixas etárias, pode haver uma certa flexibilização em outras. É possível que se chegue a uma redução global de 70% de diferentes formas", explica.

Na comparação de alguns cenários, o estudo mostrou que se 20% dos adultos (25 a 59 anos) e 90% dos idosos, jovens e crianças de Foz do Iguaçu respeitassem o isolamento de forma rigorosa, haveria um ganho qualitativo em termos de tempo e tamanho do pico de infecção. Isso porque na cidade, a faixa etária de 25 a 59 anos representa quase 50% da população, segundo dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes).

Gráfico mostra curva da Covid-19 com isolamento de 20% dos adultosPor conta da população jovem, a reabertura de escolas e universidades em Foz do Iguaçu deve ser uma decisão tomada com bastante cautela. “A decisão por reinserir fortemente tais faixas etárias na dinâmica de contágio da doença pode ter efeitos muito sérios. Apesar de não termos quantificado o número de interações na população escolar, é possível inferir que esse número seja bastante alto. Um risco adicional é que, se as crianças forem em grande parte assintomáticas, o número de infectados poderá aumentar rapidamente”, explica Luiz Roberto Ribeiro Faria Junior. O professor citou como exemplo um estudo francês, que mostrou que oito semanas de escola fechadas e 25% de teletrabalho para adultos, seria suficiente para postergar o pico da epidemia em quase dois meses, com redução aproximada de 40% na incidência de casos.


O mito do isolamento vertical

Outro dado que deve ser levado em consideração no momento de pensar políticas de combate à pandemia, é a população de idosos. Aproximadamente 7% dos moradores de Foz do Iguaçu têm mais de 60 anos e, por isso, o isolamento vertical, focado apenas nessa faixa etária, seria uma estratégia ineficaz. “Nesse tipo de isolamento, apenas uma parcela pequena dos suscetíveis seria retirada de forma mais forte da dinâmica da população. E a maior parte das interações sociais e, consequentemente, eventos de contágio, vai ocorrer entre crianças, jovens e adultos, que representam a grande maioria da população”, complementa o docente. Além disso, as informações já existentes sobre a Covid-19 no Brasil mostram que a doença está longe de ser um risco apenas para idosos. No momento em que o relatório foi redigido, no final do mês de maio, 54 das 169 mortes confirmadas por Covid-19 no Paraná, eram de pacientes com menos de 60 anos, assim como duas das mortes registradas até o momento em Foz do Iguaçu.

O modelo estudado pelo GT da UNILA não leva em consideração que algumas pessoas interagem muito mais do Gráfico mostra curva da Covid-19 com medidas de isolamento verticalque outras. Porém, ele reforça que a ideia do isolamento passa por quebrar as redes de contato, de forma que a doença não se espalhe. “É esperado que algumas pessoas altamente conectadas, que interagem com muito mais pessoas que a média, possam funcionar como hubs para o espalhamento da infecção. Professores da educação infantil e atendentes de caixa de supermercados, por exemplo, interagem com uma quantidade imensa de pessoas. Esses trabalhadores poderiam espalhar muito mais a infecção do que profissionais que trabalham mais isolados, como contadores”, explicou Faria Junior. Contudo, há pesquisas que apontam que, com medidas estritas de distanciamento social, o número de interações de um indivíduo pode ser até seis vezes menor, limitando-se a contatos com familiares que morem na mesma casa e saídas para atividades essenciais. E esse efeito poderia ser, seguramente, mais severo no caso de pessoas altamente conectadas.

O relatório ressalta, ainda, que curvas mais suaves e mais tardias não implicam em controle da doença, e sim no controle da velocidade e intensidade da curva. Para o professor Luiz Roberto Ribeiro Faria Junior, enquanto não houver um esquema vacinal eficiente, o SARS-CoV-2 seguirá sendo um problema grave de saúde pública. “Quando se pensa com responsabilidade no número absoluto de mortos associados a percentuais relativamente “baixos” de mortalidade, em um contexto onde todos são suscetíveis, percebe-se que a imunidade de rebanho não é uma opção. Pelo menos não para quem valoriza minimamente a saúde e bem-estar das pessoas”.

Grupo interdisciplinar

O relatório “Dinâmica da evolução do número de infectados por SARS-CoV-2 em diferentes níveis de isolamento social: um estudo de caso para Foz do Iguaçu com o modelo SEIR-Net” é o primeiro estudo do Grupo de Trabalho de Projeções da UNILA. A equipe reúne profissionais e pesquisadores das áreas de saúde coletiva, medicina,  epidemiologia, biologia, geografia, física e das engenharias que estudam as dinâmicas da covid-19, levando em consideração a localização e as características populacionais de Foz do Iguaçu, o Oeste do Paraná e a Tríplice Fronteira. “Os resultados são construídos através de discussões científicas, baseados em estudos de outros grupos de pesquisas ao redor do mundo e, também, obtidas de experiências com outras pandemias que já ocorreram no passado e, importante dizer, foram vencidas pela humanidade”, explica o coordenador do GT, professor Ricardo Hartmann.

Com os estudos, o GT pretende fornecer informações científicas à população de Foz do Iguaçu e auxiliar na tomada de decisões das autoridades do município. Entre os membros externos à UNILA estão os técnicos Mara Ripoli e Rodrigo Gaete, que apoiam o trabalho de Vigilância Epidemiológica na Prefeitura de Foz do Iguaçu, além de atuarem fornecendo dados e apoiando nas análises do processo sobre a situação da pandemia no município. “As análises de rotina já são feitas pelos técnicos que atuam no sistema de saúde. Mas a perspectiva de fazer projeções de casos e tentar entender o comportamento da pandemia demanda fazer uma discussão mais aprofundada e mais embasada sobre essas informações do municípios. Para além disso, um dos principais desafios do GT é ampliar as análises para a macro regional de saúde, bem como a região transfronteiriça”, disse Rodrigo.

O GT de Projeções faz parte de uma das nove ações institucionais de enfrentamento da covid-19, promovidas pela UNILA com o apoio da comunidade externa. O grupo também está trabalhando em uma linha do tempo, que irá apresentar todo o histórico da doença em Foz do Iguaçu, e será divulgada em breve. Os interessados em entrar em contato com o grupo podem escrever para o e-mail ricardo.hartmann@unila.edu.br.