Você está aqui: Página Inicial > Notícias > "É muito temerária essa escalada de países que querem ingressar na Otan", diz pesquisador
conteúdo

Institucional

"É muito temerária essa escalada de países que querem ingressar na Otan", diz pesquisador

Fábio Borges, docente da área de Relações Internacionais, vê com preocupação a escala na guerra na Ucrânia, que já passa de 100 dias, e reflete sobre o papel da Otan no conflito
publicado: 08/06/2022 10h00, última modificação: 09/06/2022 16h19

O fortalecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), com a adesão de novos países, está na raiz da invasão russa à Ucrânia, originando um conflito armado que já dura mais de 100 dias. “Eu diria que é muito temerária essa escalada de países que querem ingressar [na Otan] e as respostas que a Rússia poderá dar a isso”, reflete o docente da área de Relações Internacionais e pesquisador de economia política internacional Fábio Borges. “Diante desse cenário, onde essas grandes potências estão se movimentando, a chance de qualquer faisquinha se tornar uma explosão grande é real.”

O pesquisador explica que a Otan nasce logo após a Segunda Guerra Mundial, no início da Guerra Fria, com o objetivo de “prevenir a expansão da União Soviética para o ocidente capitalista”, e especialmente para os países ricos do Hemisfério Norte. Além disso, diz ele, a Otan é resultado de um “aprendizado” obtido nas duas grandes guerras. “Na Primeira e Segunda Guerra Mundial [foram firmadas] muitas alianças secretas. Um dos mecanismos para evitar essa desconfiança e alianças que não se sabia onde poderiam parar institucionaliza-se [a formação de alianças] através de um organismo intergovernamental e de modo transparente”, explica. “Mas, obviamente, os interesses específicos têm muito a ver com o poder dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria”, completa.

Em 1991, com a dissolução da União Soviética e do Pacto de Varsóvia (organização que fazia contraponto à do Atlântico Norte), “a própria Otan entra em cheque porque é muito difícil existir uma aliança militar sem se ter um inimigo, uma ameaça”. A partir daí, a Otan passa a exercer outras atividades de combate a novas ameaças, como o terrorismo, o tráfico de drogas, os movimentos separatistas, mas os resultados não foram os esperados. “Aquele otimismo exagerado de que os Estados Unidos seriam capazes de ser o ator e estabilizador do sistema foi por água abaixo. Especialmente no 11 de setembro de 2001 ficou clara a fragilidade dos Estados Unidos nesse papel de liderança e, em geral, o que a gente vê é uma perda relativa do poder dos Estados Unidos no sistema internacional.”

De acordo com o pesquisador, a Otan, que estava vivendo um momento de descrédito, “agora reemerge com um significado maior por conta desse conflito e por conta de identificar novamente a Rússia como o inimigo”. A reação da Rússia, um país de tradição expansionista, despertou a desconfiança de países vizinhos que buscam prevenir-se de uma possível invasão. 

Protagonismo subestimado

Para ele, o poder da Rússia e sua tradição no sistema internacional foram subestimados, principalmente entre o final dos anos 1990 e a primeira década do século 21. “A Rússia, assim como os Estados Unidos, tem um ideário nacional, tem um mito fundacional de que é um país destinado a ser protagonista no sistema internacional”, afirma. “Na verdade, a Rússia nunca deixou de ser um ator extremamente importante. É uma potência nuclear. Subestimar a Rússia é um problema, só que nesse momento em que a Otan expandiu de 6 para 30 membros e, inclusive, alguns países da ex-União Soviética, obviamente o impacto na Rússia é de uma provocação.” Nesse sentido, diz Fábio Borges, “a Rússia se sente no mesmo direito dos Estados Unidos de pensar preventivamente a sua própria segurança”. Ele cita, como exemplo, a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962, quando os russos tentaram criar uma base militar na ilha caribenha e houve uma forte reação norte-americana.

A guerra na Ucrânia despertou, novamente, um cenário de incertezas e desconfianças entre os países, destaca Fábio Borges. “Agora parece que vem com muita força novamente um cenário internacional no qual você vai ter muita desconfiança do que pode acontecer: uma possível corrida armamentista, possíveis acidentes trágicos que podem trazer guerras de grande envergadura. É um ambiente muito delicado, é muito tenso”, frisa. Essa instabilidade, alerta o pesquisador, normalmente acontece em períodos de transições hegemônicas. “Quando uma potência está em decadência e outra está subindo, normalmente são períodos muito trágicos, como foi a Primeira Guerra mundial, como foi a Segunda Guerra Mundial.”

Ele chama a atenção para o fato de o momento envolver países com grande poderio militar e nuclear. “Porque nós não estamos falando de potências assimétricas, estamos falando da Rússia, que é a maior potência nuclear neste momento. Os Estados Unidos estão num momento muito delicado para definição da sua política externa, porque não há uma sincronia entre o papel que eles acham que têm no sistema internacional e o que eles realmente têm.” 

Além do conflito bélico, o mundo também assiste a uma “guerra de narrativas”, às vezes, com versões opostas sobre um mesmo acontecimento. “Na guerra em geral, é senso comum que ‘a primeira coisa que se mata é a verdade’. A guerra de informações, assim como [na Guerra Fria], é uma estratégia importante. Talvez com menos possibilidades de se manter por muito tempo, porque as conexões são mais intensas.”

Veja a entrevista completa no episódio da série ¿Qué Pasa?. No episódio, Fábio Borges comenta, ainda, a intenção de Finlândia e Suécia fazerem parte da Otan e as consequências dessa decisão, o possível uso de armas nucleares, as dificuldades da diplomacia na resolução do conflito, a importância de diferentes países no sistema internacional, o papel do Brasil e demais países dos BRICs.

registrado em: , ,